Setembro amarelo é o mês em que a depressão ganha holofotes, mas ela vem em uma bacia em que se coloca a melancolia e o luto juntos e os mistura para formar uma coisa só. Embora tenham alguns sintomas observáveis parecidos, não são, exatamente, a mesma coisa e possuem diferenças importantes para se saber para não correr o risco de patologizar sentimentos normais.
O que é o luto?
Vamos começar pelo luto. O luto para Freud é a reação à uma perda de uma pessoa amada ou de uma abstração que ocupa este lugar (pátria, ideal, liberdade), é descrito como um processo doloroso que ocasiona perda de interesse pelo mundo externo, perda da capacidade de amar e inibição de atividades que não se liguem à memória do objeto perdido (pessoa ou abstração).
É muito importante compreender que o luto é um trabalho psíquico onde o objeto não existe mais e exige que a libido seja retirada de todas as ligações que se tinha e do investimento libidinal que colocou naquela relação. Essa perda gera resistência porque ninguém abandona de bom grado uma posição libidinal (energia vital e desejo que está direcionado) e Freud menciona em seu texto “Luto e Melancolia”, que a resistência pode vir a produzir um afastamento da realidade e um apego alucinatório ao objeto, que é uma forma de “não deixar ir” e agir como se a pessoa ainda estivesse ali como um membro fantasma.
Porém, pouco a pouco, no tempo de cada pessoa, e exigindo uma boa dose de energia, o luto termina, o eu fica livre e desinibido de novo (o famoso seguir em frente). Mas é importante salientar que não é o luto que deixa de existir, é a vida que cresce, que floresce e assim esse processo vai deixando de ser dilacerante até que, de fato, possa sentir uma doce saudade ao invés da dor amarga, e assim o luto se completa.
O que é melancolia?
A melancolia tem algumas semelhanças com o luto, o mesmo desânimo profundo, o desinteresse pelo mundo e a inibição. A diferença decisiva é a perturbação da autoestima, o melancólico se recrimina, se diminui, se diz indigno e altamente desprezível, e espera punição. No luto é o mundo que fica empobrecido, na melancolia é o próprio eu.
Freud, então, faz a análise que torna o texto rico e importante ao separar alguns pontos da melancolia:
- A perda é de natureza mais ideal e inconsciente: o melancólico pode saber quem perdeu, mas não sabe o que perdeu nessa pessoa, por isso o trabalho do luto não consegue se completar.
- A escolha de objeto foi feita sobre base narcísica: o vínculo era frágil e diante de uma decepção ou ofensa a libido não se liga a outro objeto, ela regride para o eu e serve para estabelecer uma identificação do eu com o objeto perdido. E com isso temos a frase mais famosa do texto: a sombra do objeto caiu sobre o eu. Que quer dizer que o melancólico não perde o objeto, o incorpora, e passa a tratar a si mesmo como trataria quem o abandonou ou o feriu. Por isso, no fundo, as autoacusações do melancólico são acusações ao objeto perdido, voltadas contra si mesmo.
- Uma instância crítica do eu (mais tarde Freud chamará de supereu) se separa e trata o eu com sadismo, levando o sujeito a se tratar com uma crueldade que não tem proporção com nenhuma falta real. Isso explica o risco do suícidio: o eu só pode se autoexterminar se, por meio da identificação, trata a si mesmo como objeto, direcionando toda hostilidade a si mesmo.
- A ambivalência é constitutiva, há amor e ódio pelo objeto, e o ódio se satisfaz nesse tormento a si mesmo.
O que é depressão?
A depressão não é um conceito freudiano, mas psiquiátrico. Ela vem da psiquiatria descritiva e agrupa quadros definidos por sintomas observáveis e não observáveis em seus manuais (CID, DSM), sem referência à estrutura psíquica ou à causa. Por isso, não há uma ligação direta e as respostas podem variar, pois a depressão é uma categoria ampla que pode abranger quadros que são distintos na visão psicanalítica. Um sofrimento depressivo pode ser um luto, uma reação neurótica, melancolia ou episódio ligado à outra coisa.
A depressão pode ser classificada como: transtorno depressivo maior, transtorno depressivo persistente e transtorno depressivo causado por uso de substâncias, por outra condição médica, especificado e não especificado.
Os sintomas observados pela própria pessoa, ou por terceiros, são descritos pelo DSM V que diz que cinco (ou mais) dos sintomas abaixo devem ter estado presentes durante o período de duas semanas e pelo menos um dos sintomas é o humor deprimido ou a perda de interesse ou prazer, incluindo:
- Humor deprimido na maior parte do dia, em crianças e adolescentes pode ser humor irritável;
- Acentuada diminuição de prazer e do interesse em todas ou quase todas as atividades na maior parte do dia, quase todos os dias;
- Perda ou ganho significativo de peso sem estar fazendo dieta;
- Insônia ou hipersonia quase todos os dias;
- Agitação ou retardo psicomotor quase todos os dias;
- Fadiga ou perda de energia quase todos os dias;
- Sentimentos de inutilidade ou culpa excessiva ou inapropriadas, que podem ser delirantes;
- Capacidade diminuída para pensar ou se concentrar, ou indecisão, quase todos os dias;
- Pensamentos recorrentes de morte, ideação suicida recorrente ou plano específico para ceifar a própria vida;
- Os sintomas causam sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo no funcionamento social, profissional ou em outras áreas importantes da vida do indivíduo.
Informações retiradas do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM - 5) - 5ª edição.
O que a psiquiatria chama de depressão, para Freud seria um conjunto de manifestações que precisa ser investigado caso a caso em que o abatimento pode aparecer como sintoma. O que distingue cada um é o que a análise revela sobre o objeto, a identificação e a relação do eu com a instância crítica, e não a intensidade do sintoma.
Nota-se que alguns sintomas da depressão podem aparecer no modo de existir da melancolia. Hoje a depressão é dita pelos psiquiatras como o “mal da modernidade”, muito associada ao desgaste contemporâneo, lutos mal elaborados e demandas sociais que cercam o sujeito. Já a melancolia existe desde a antiguidade e é descrita por Hipócrates como a “desistência do existir”, é como se o mundo ficasse sem cor e em profunda dor.
Enquanto a depressão tem estágios mais ou menos elevados, a melancolia apontaria para o que os médicos classificariam de mais severo e paralisante do sofrimento psíquico.
Como a psicanálise trata o luto, a melancolia e a depressão?
Freud aponta em seu texto que o luto não deve ser perturbado, pois cada pessoa tem seu tempo de elaboração. Mas veja bem, não quer dizer que ele não deva ser sentido, falado, ouvido, mas que não cabe ao analista, ou a alguém, apressar um processo tão singular.
Sobre a melancolia, ele diz que não adianta discordar do paciente quando o mesmo se chicoteia, aqui o papel do analista é manejar para que o analisante possa elaborar a dor e, em algum momento, deixar de ser o próprio carrasco e sair da apatia paralisante, tendo novas formas de investir sua libido. Aqui é importante que o paciente saia do “queixume” e vá para a queixa, ou seja, saia do queixume infinito e repetitivo e direcione sua queixa para que se separe do objeto que devora seu existir, também é necessário que o paciente tenha possibilidade de dar contorno para que delimite sua dor e o buraco deixado pela perda.
Freud não fala sobre a depressão, pois não é de seu tempo, mas a psicanálise acolhe o discurso do sujeito para que o mesmo possa se haver com suas questões, ser criativo e encontrar novas formas de existir que causem menos sofrimento.
Claro que há momentos em que alguns sintomas paralisam o dia a dia, por isso que o trabalho multidisciplinar é importante (análise pessoal, acompanhamento nutricional, tratamento medicamentoso, cuidado com o corpo, etc), não há um campo de estudo salvador da pátria, o que existe são campos que atuarão de formas distintas, mas que podem dialogar entre si para que o paciente possa apresentar melhoras e viver de formas menos sofridas.
Se você se identifica com o que foi descrito neste texto, te convido a agendar sua sessão de psicanalise pelo meu WhatsApp, saiba que estará em um espaço seguro e sem julgamentos para que possa se haver com suas questões. Clique para agendar.
Referências
AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. DSM-5: Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais. 5. ed. Porto Alegre: Artmed, 2014.
FREUD, Sigmund. Introdução ao narcisismo, ensaios de metapsicologia e outros textos (1914-1916). Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. (Obras completas, v. 12).
DUNKER, Christian. Qual é a relação entre depressão e melancolia? Falando nIsso 23. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=41kGuYcG2eA.