24/02/2026 às 20:57 Clínica Contemporânea

Internet, games e a horizontalização social

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Você deve ter vivido este cenário: pai e mãe mandavam e eram obedecidos cegamente ou o castigo viria a cavalo. O que era a vida era respondido diretamente, sem rodeios e introjetado como a mais pura verdade, que era seguida até o fim dos dias e passada de pais para filhos.

A sociedade foi vertical por um bom tempo, a hierarquia era clara e seguida sem questionamentos e aqueles que questionavam montavam uma banda de rock, faziam poemas, pintavam, realizavam protestos nas ruas, frequentavam o Woodstock pela liberdade de ser quem fossem, mesmo não sabendo o que isso significava.

Mas hoje, algo mudou, ou melhor, muitas coisas mudaram, se antes seguíamos a bússola dourada, hoje ela se tornou obsoleta e ficamos desbussolados frente ao que é a vida, porque não há uma resposta a ser seguida, mas a ser inventada. Porém, frente ao Gozo imperativo, ficamos à mercê do comando “beba a felicidade” ou será “goze a felicidade”?

Internet, games, marketing entram como a figura do comando, pois, como em Percy Jackson, entramos num cassino, engolimos o ecstasy e seguimos repetindo, repetindo e repetindo para gozar demais sem desfrutar. E é nessa repetição que o vício pode vir a nascer, porque para continuar gozando precisa-se ficar neste cassino, nessa rede social, nesse game, e é aí que a ordem não sabe o que fazer, pois frente ao gozo a hierarquia perde força, se antes o adulto mandava e o jovem obedecia, hoje a palavra perde poder, não é introjetada e obedecida, mas desafiada pela ordem do gozo, porque no hiperconsumo há a ilusão de ganhar a felicidade que é minha por direito. 

Aqui abro um parêntese, porque há muito na conta das gerações mais novas, só que vícios sempre existiram e existirão, muda-se o tempo, mas há sempre algo em nós que pede por mais, não à toa existem adultos de diferentes idades também viciados em tecnologias diversas. 

Continuando, os avanços tecnológicos trazem, em seu marketing, a satisfação, a imperatividade de estar sempre feliz, gozado, mas neste lugar de gozo há pouco espaço para o desejo que exige o lugar da invenção, da responsabilização e da criatividade. Oras, como serei criativo se estou, a todo momento, satisfeito, viciado, em ecstasy pelo meu consumo? Ao perder a noção do esforço, da conquista, da invenção, perde-se o lugar do desejo, porque não há espaço para desejar quando não há o vazio, a falta, a incompletude, esta que é falsamente ignorada pela ilusão da satisfação entregue de bandeja pelo vício. 

E, ao mesmo tempo em que há tantas opções, há também a perda da capacidade de escolher, uma vez que ficamos horas e horas consumindo sem, de fato, ter escolhido o que está sendo consumido — parafraseado, de tanto escolher acaba sendo escolhido — ficando presos na ilusão da completude.

Mas engana-se quem acha que essa satisfação não gera angústia, diante de tantas escolhas, tantas opções de satisfação — desde cardápios a conteúdos — nos vemos diante de uma sociedade angustiada pelo vício que não preenche. É um paradoxo se pensarmos sobre isso, pois, se de um lado há a satisfação viciante, do outro há a angústia por ter tantas escolhas e, ao escolher uma, se vê insatisfeito por ter escolhido.  Esse excesso nos traz o outro lado da moeda e nos dá de encontro com o real: não há como viver sem angústia, não há meios de viver sem o sofrimento, sem a insatisfação. Ao tentar resolver essa equação, nos depararemos com a falta e a tentativa, sempre insuficiente, de tamponar aquilo que sempre estará faltante, vazio, e é neste “abismo” que, ao olhar, se deparará com a não garantia de efetividade, porque não há garantia, dado que sempre que colocar algo “na sua falta” haverá mais falta, mais querer, mais necessidade de se satisfazer no impossível e é aqui que mora o vício, o excesso, porque ele satisfaz por um momento só que sempre, sempre, será insuficiente e sempre haverá o querer mais, gozar mais. 

A grande questão é que a saída do cassino não está sinalizada com um letreiro, assim como em Percy Jackson capturado pelo prazer imediato em que não precisa desejar, para sair deste ecstasy uma “saída” é sair da captura do gozo para se inscrever no campo do desejo, em que o mesmo implica a falta, tempo, responsabilidade e incompletude, enquanto o gozo implica estagnação sedutora, o desejo abre espaço para a criatividade, para a construção e para o movimento. E principalmente para se posicionar como sujeito, visto que quando não há limite, não há sujeito, só o gozo absoluto que aprisiona numa repetição que afasta da própria vida.

Bibliografia

Forbes. J. Geração Mutante, disponível em Geração Mutante: Palavra Diz, Palavra Toca - Jorge Forbes

Forbes, J. TerraDois, disponível em https://www.youtube.com/watch?reload=9&v=7fKwQtVluG8

ANDRADE, Helainy. Videogames, hiperconsumo e outros ‘vícios’ no tratamento de crianças e adolescentes. Palestra/Conferência. Curso Psicanálise: Novas Conferências sobre a Clínica do Real, Instituto IPLA, 2022.

24 Fev 2026

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Sociedade Horizontal Terra Dois Vicios e consumo

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